11.7.07

as manobras outonais do tempo


Manobra Outonal

Eu não digo: foi ontem. Com dinheiro de verão
desvalorizado no bolso estamos novamente
no debulho do escárnio, na manobra outonal do tempo.
E a saída de emergência para o sul não nos é,
como aos pássaros, favorável. Á noite,
passam barcos pesqueiros e gôndolas, e às vezes
me atinge um estilhaço de mármore cheio de sonho,
onde sou vulnerável, através da beleza, no olho.

No jornal leio muito sobre o frio
e suas conseqüências, de mórbidos e mortos,
de desalojados, matança e miríades
de pedaços de gelo, mas pouco sobre o que me agrada.
E por que deveria? Para o mendigo, que vem ao meio dia,
fecho a porta na cara, pois é tempo de paz
e pode-se poupar tal visão, mas não
na chuva a morte infeliz das folhas.

Vamos fazer uma viagem! Vamos ver debaixo dos ciprestes
ou também das palmeiras ou das plantações de laranjas
a preços reduzidos o crepúsculo inigualável!
Vamos esquecer as cartas não respondidas ao ontem!
O tempo faz milagres. Mas quando nos alcança em momento
errado,
com o pulsar da culpa: nós não estamos em casa.
No porão do sentimento, sem dormir, me encontro
no debulho do escárnio, na manobra outonal do tempo.

Ingborg Bachmann



ANDANTE

Conta-me um conto que nunca contasses a ninguém

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