11.1.07

um post inteligente sobre a questão do referendo e da interrupção voluntária de gravidez...

Com a devida autorização da Cristina, aqui vai o que ela escreveu no Contra Capa:

"é inevitável
o regresso ao tema "aborto", e chegaremos ao dia do referendo sem abordar questões importantes, com toda a certeza.Pergunta o Fado Alexandrino no Braganzas, se a nova lei não será uma legalização. E escreve:
Dizem os defensores do aborto que a próxima lei não significa a liberalização do aborto.Façam então o favor de me explicar, onde é que na Lei está que uma garota de dezanove anos, uma rapariga de vinte e cinco ou uma mulher de trintas e tais não pode chegar a um hospital público e dizer, quero abortar sem dar qualquer justificação.
Porque as coisas não se passam nem se passarão assim, com essa leveza. Actualmente, com a lei em vigor, nenhuma mulher com, por exemplo, uma malformação do feto perfeitamente documentada, "pode chegar a um hospital público e dizer, quero abortar". É uma visão simplista e desfocada do que é a prática clínica. Isso não existe. Antes, terá que passar por consulta de aconselhamento e serão equacionadas as possibilidades de contornar a situação.
Se a nova lei for aprovada, e principalmente nos hospitais públicos, vai acontecer uma coisa importantíssima: vão ficar registadas as interrupções que a mulher fizer e ela será necessariamente encaminhada para consultas de planeamento, de assistência social, de psiquiatria se se justificar.. Será acompanhada e sua saúde será vigiada. As instituições privadas serão obrigadas a ter este tipo de acompanhamento também. Mais!, será possível fazer estudos e estatísticas das zonas onde as mulheres recorrem mais ao aborto, tentar perceber porquê, verificar que tipo de consultas de planeamento têm disponível e melhorar. Tudo isto só será possível se a IVG estiver devidamente registada. Só assim haverá dados concretos sobre os quais actuar e só nestas circunstâncias se poderá fazer um trabalho sério sobre uma realidade que existe qualquer que seja a lei.
Ao contrário, se o aborto continuar a ser clandestino, as mulheres poderão recorrer a ele as vezes que entenderem, sem que haja qualquer controlo ou intervenção; entende-se a diferença? Na situação actual, a mulher, pode fazer 5 ou 6 abortos por ano, que ninguém a encaminhará para uma consulta de planeamento e aconselhamento. São decisões solitárias.
Numa instituição pública é impossível! Embora a vontade seja sua, a decisão é colectiva, e isto possibilita sempre uma intervenção em sentido contrário. Entenderão as pessoas que os médicos vão realizar as IVG's que lhes pedirem sem questionar? Sem aconselhar? Não, não são tão inconscientes, façamos-lhes essa justiça. As mulheres são "agarradas" pelo sistema de saúde e isso faz toda a diferença.Deixo um exemplo: se uma mulher tiver um parto por ano, seguramente alguém na consulta de obstetrícia lhe há-de sugerir, e sugere!, um método mais eficaz que pode ir até à laqueação de trompas. E se as gravidezes não fossem seguidas e os partos se fizessem em casa? Quem controlaria os riscos da gravidez múltipla e de complicações?
É exactamente a mesma coisa.

Agradeço-te, Cristina.

1 comment:

Cristina said...

Obrigada, fico até sem jeito! :D

beijinhos