3.1.09

Manta de retalhos e muralhas de betão para uma crise



“Nem Elisabete nem Bruno fazem parte das estatísticas do meio milhão de desempregados. O emprego que tinham antes já era precário e a falta de formação não os ajuda a conseguir algo melhor. Estão preocupados e sabem que 2009 não vai ser fácil.”

“Em casa da família Duarte não há luxos. Os objectos mais valiosos são a televisão e os computadores que Bruna e Joana receberam na escola. Os poucos bibelôs servem apenas para dar a conhecer as simpatias de todos pelo Benfica e a fé de Paula.

O pai tanto pode como não pode vir jantar. Sai às 14.00 para trabalhar como taxista em Lisboa e só regressa pelas cinco da manhã, precisamente à hora que Paula sai para trabalhar numa empresa de limpeza até às nove. Três horas apenas de trabalho, porque depois as mais velhas já não estão para cuidar da Tânia e da Cristiana, as crianças mais novas para as quais não conseguiu vagas nas creches públicas. E pagar 25 contos (120 euros) a uma ama está fora de questão.”

"O Pai Natal não me trouxe um emprego em Portugal e não vou ficar à espera do coelhinho da Páscoa." A frase determinada é de Sofia Silva, enfermeira recém-licenciada que parte este mês para a Suíça à procura de um emprego. Entre as muralhas de betão do Cacém lutou, em 2008, contra as desilusões e rasgou os horizontes.

Tudo com a ajuda de um computador com acesso à Internet. Através dele pediu emprego, inscreveu-se no centro de emprego e conheceu as oportunidades que o mundo lhe oferece e o seu País não. Através dele deu os passos que a levaram à decisão de deixar Portugal, os pais e o irmão, neste início de 2009. "Fiz tudo o que estava ao meu alcance para arranjar um emprego aqui. Algumas coisas que até não deveria ter feito", confessa. Mas nem assim conseguiu ser enfermeira num hospital português, um sonho desde a adolescência e pelo qual investiu quatro anos da sua vida num curso. Entretanto, "fui vendo colegas meus a entrarem com as ajudas de alguém. Quem não as tem fica parado". Determinada diz: "Agora estou numa fase de desinvestimento no País, onde as perspectivas são zero".

“O vencimento-base de cada um são 2000 euros. Mas, ao fim do ano, ainda vêm os prémios, explica Luís, figura simpática. Para quem vive na província este rendimento permite poupar.

Por isso, quando questionado sobre a crise, Luís responde: "Notou-se um bocadinho. Tivemos que pôr mais dinheiro para as prestações das casas . E os gastos com combustíveis pesaram." Na bomba, o casal, com dois carros, gasta 350 euros por mês. Estes aumentos, contudo, nunca obrigaram a família a fazer cortes. " Para não cortarmos no dia a dia deixamos de poupar. Essa foi a diferença", diz o Luís. "Vivemos tranquilamente com a crise", remata Luísa. "Mas isso não quer dizer que não estejamos preocupados. Somos pessoas informadas. E dá para pensar se isto continuar como vai ser", acrescenta Luís.”

Excertos de um artigo do DN.

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