26.10.07

um dia para se libertar de si e das suas máscaras...
ou o sofrimento como escultor de si


Bastou um dia para lhe mudar a vida. Em Março deste ano, António Lobo Antunes, 65 anos, entrou no Hospital de Santa Maria com o manuscrito em que trabalhava debaixo do braço. E dali já não saiu.
"Há sempre palavras a mais."
"Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir. "
"Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei. "
"Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção."
"Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques."
"No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover."
"Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar."
"Não penso em nada, é uma surpresa infinita."
"Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço."
"Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau."
excertos duma entrevista com Lobo Antunes na Visão
Há sempre palavras a mais... aqui deixo o essencial. O sofrimento e o tempo esculpem-nos! Já algum tempo que leio pouco e sempre tive alguma dificuldade em entrar na escrita de Lobo Antunes, não porque ache que seja difícil mas justamente porque sentia o desejo de sedução do escritor superior à densidade da escrita. Fico à espera do livro que toque o mistério das coisas sem máscaras e sem truques...
imagem: uma colagem que fiz com fotografias encontradas no site da visão

5 comments:

maloud said...

Passei para lhe dizer olá. Há tanto tempo que não vinha aqui!

e-ko said...

olá Maloud!

sabe, o meu computador foi ao ar e perdi o seu e-mail e nº de tel. ainda fiz um pequeno post sobre o ocorrido mas como nao passou nao viu.

abraço

PostScriptum said...

Confesso que não gosto de Lobo Antunes. Porém, não é toda a arte sedução? Pessoalemte acho que é.

e-ko said...

a arte é acima de tudo re-presentação... e se essa re-presentação é só sedutora através de formas vazias, fica-se ao nível das artes decorativas... não ?

há um abismo, para dar um exemplo, entre uma cena de teatro de boulevard e uma cena de "à espera de Godot" do Beckett, entre o retrato de Marylin do Warol e um autoretrato do Van Gogh ou do Lucien Freud...

Gi said...

Sempre me senti mais seduzida pela escrita do que pelo homem. Acompanho-o desde há mais de 20 anos com a Memória de Elefante e os Cus de Judas , só o Eu hei-de Amar uma Pedra não "entrou" ! Admiro-o por demais e acho até que o Nobel já lhe é devido há muito. Se bem que lhe admire a postura como escritor , mesmo a forma disciplinada com que encara a escrita (com horários como se de um emprego se tratasse) como pessoa, não o apreciava por aí além. Acho que ele se revelava muito nas suas crónicas e não gostava da maior parte das "mensagens" que ele passava. Sempre tentei dissociar o escritor da escrita e acho que consegui. Acho interessantes estas palavras dele. O que eu acho que é uma pena é as pessoas, não só ele, pensarem que estão a chegar ao fim para se despirem ... quantas coisas não podiam ter sido ditas, feitas se essas palavras fossem ditas enquanto a vida ainda lhes sorri.


beijinhos


(nota: falei-te no outro dia sobre o trabalho de Cristobal Vila. Hoje deixei mais um sobr o FLW fallinwater - acho que vais gostar

nota 2: a colagem está impecável)