13.5.07

exageros são obscenidade
sem imagens obscenas

A HISTERIA DE LAGOS

«O PÚBLICO refere na primeira página, na passada quarta-feira, que todos os anos muitos milhares de crianças desaparecem na Europa e informa que, segundo a Unicef, 1,2 milhões de crianças serão anualmente traficadas. A criança que desapareceu em Lagos é o primeiro caso de um menor desaparecido em Portugal a ser incluído no site da polícia britânica que trata desse flagelo.

Estes os factos. O resto é pura e simplesmente histeria.Ponderei bastante antes de decidir dedicar a este tema a minha crónica semanal. Mas, confesso, acabei por decidir-me, baseado num movimento de revolta. Sou capaz de resistir a provocações e a sentimentos de revolta, mas, em regra, prefiro não o fazer. Creio que assim arranjo alguns inimigos, mas julgo que também evito alguns enfartes de miocárdio. E, se não gosto de enfartes, até aprecio ter inimigos; pelo que vamos a isto.

O que se está a passar por estes dias no Algarve é realmente um exemplo do estado a que chegaram as sociedades modernas e do papel profundamente nefasto que exerce a comunicação social quando decide explorar sentimentos para divulgação em prime time. O rapto de crianças é um horror, tudo o que se faça para o evitar é positivo, a consciência social tem de ser alertada para o problema. Mas, dito isto, o rapto de crianças aos milhares, o fenómeno das crianças guerreiras em África, o genocídio em Darfur, os carros-bomba no Iraque que matam inocentes todos os dias, os acidentes de viação que ceifam vidas à saída de discotecas são o lado horrível de um tempo em que, se comparado com outras épocas da longa história da Humanidade, vale a pena viver.

Nada tenho contra uma estratégia que alerte para perigos que resultam de estarmos vivos, utilizando para isso alguns acontecimentos que, em si mesmos, são capazes de fixar a atenção dos cidadãos. E, por isso, admito que o caso da criança desaparecida em Lagos possa ser usado para efeitos pedagógicos. Nada tenho contra o debate sobre este tema (por exemplo, será razoável que pais deixem filhos muito pequenos sozinhos num lugar estranho?), mas não é, obviamente, disso que se trata. Aquilo a que assistimos é a uma telenovela estruturada para captar a atenção dos espectadores, provocando neles uma sensação de receio e de empatia ("isto podia ter-me acontecido a mim"), que todos sabemos ser o segredo do sucesso nas audiências televisivas.Os órgãos de comunicação social gostam de valorizar o seu papel estruturante para a existência do Estado de direito. E baseiam na responsabilidade social a importância da sua actividade de denúncia de situações de corrupção e da legitimidade para resistirem a pressões políticas e económicas.

Podemos, cinicamente, afirmar que tudo isso não são mais do que tretas, má-fé, pretextos para justificar o injustificável e aumentar audiências. No meu caso, pelo contrário, afirmo que concordo com essa visão que os media gostam de dar de si próprios. Apenas exijo que, sendo assim, sejam capazes de viver de acordo com tão elevadas e meritórias ideias.A criança desaparecida é inglesa, branca, filha de médicos bem integrados na comunidade, seguramente pessoas estimáveis, que pagam impostos e contribuem para o progresso do seu país. Mas outras crianças oriundas de territórios menos favorecidos, com pais menos integrados, desaparecem, morrem ou são raptadas todos os dias aos milhares por esse mundo fora. Mesmo em Portugal, isso vem acontecendo, infelizmente, com alguma regularidade. Citando de novo o PÚBLICO, no meritório texto que divulgou, em 2006 desapareceram em Portugal 31 crianças, mais de metade das quais com idades entre 11 e 15 anos. Apesar disso, não vi helicópteros e aviões fretados por canais de televisão, centenas de polícias e de cães mobilizados, embaixadores a fazer declarações no meio de ambulâncias, o Presidente da República a ser solicitado para declarações públicas.

As sociedades modernas vieram dar oportunidades e condições de vida que as grandes massas ao longo dos séculos nem sequer suspeitavam que fossem atingíveis. Esse enorme salto em frente vem inevitavelmente associado a riscos e perigos novos, diferentes dos que dizimavam as sociedades tradicionais. O que se passou em Lagos é estatisticamente uma inevitabilidade que decorre da realidade que define o nosso tempo; e é estatisticamente irrelevante em Portugal. Pelo contrário, o que se passa noutros países, alguns dos quais atrás mencionei, não é estatisticamente irrelevante. Mas os media, britânicos ou portugueses, estão-se positivamente borrifando, é para o lado que dormem melhor, estão-se nas tintas, porque manifestamente é mais perigoso e dá menos audiências relatar a tragédia cósmica de Darfur do que descrever em directo os pormenores do drama familiar de Lagos. Estes são factos. Por muito que custem a engolir. Aqui ficam, por isso, relatados. Para que ao menos haja uma pessoa que escreva o que ouço dizer a muitas pessoas com que me tenho cruzado nos últimos dias. » José Miguel Júdice (Público assinantes)
A verdadeira dor e a verdadeira solidariedade podem não ser visíveis.

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